Por Milton Silveira Neto
Ao longo da minha atuação como instrutor de armamento e tiro, sempre enfrentei o desafio constante de lidar com diferentes perfis de atiradores. Do iniciante absoluto ao operador mais experiente, todos chegam com expectativas muito parecidas: aprender, evoluir e entender melhor o equipamento que têm em mãos.
Quem nunca ouviu um “é assim, porque sim!”
Eu ouvi esse tipo de respostas várias vezes — e isso sempre me gerou mais dúvida do que aprendizado. Na minha busca incansável por tentar sanar essas dúvidas, acabei tendo contato com um grande engenheiro e projetista de armas e hoje um grande amigo, Alexandre Grecco. Seu pai foi projetista aeronáutico na Força Aérea Brasileira desde 1943, Alexandre também trabalhou na mesma área para a Força Aérea Brasileira, para a Engesa e Taurus.
Grande parte do conhecimento sobre armas de fogo que carrego hoje vem dele.
Ele nunca me respondeu “Porque Sim” para nenhuma das minhas dúvidas e perguntas. E essa atitude dele, por si só, já mudou completamente a forma como eu enxergo hoje os seus ensinamentos e o entendimento das armas. Foi a partir disso, que parei tudo e passei a tentar compreender, de fato, os funcionamentos das armas antes de tentar ensinar qualquer coisa para qualquer aluno, pois passei a rever meus conceitos, e para mim, “Mudar de opinião não é fraqueza, é evolução:
“Só permanece preso ao passado quem confunde coerência com orgulho.”
Mas agora vamos ao ponto do artigo:
Depois disso, sempre me questionei o porque das propagandas antigas dizendo pistolas automáticas, carabina automática, como era o caso de pistolas como a Colt M1911 em calibre .45 ACP, a FN Browning Hi-Power, ou até modelos mais antigos como a Mauser C96, Luger e etc, todas são“automatic pistols”.
O mesmo acontecia com armas longas. A famosa Browning Automatic 5 traz no próprio nome o termo “Automatic”, sendo uma das primeiras espingardas que realizavam o recarregamento da câmara de forma automática. Carabinas como a Ruger 10/22 ou rifles como o M1 Garand também operam no sistema de recarregamento automático, uma vez que a arma foi projetada e construída para operar com o sistema automático de carregamento da câmara, somente depois dessa automatização, nasce a possibilidade também de que armas automáticas atirassem em regime intermitente e contínuo, em inglês, idioma de origem de um grande número de fabricantes de armas automáticas o regime de disparo é denominado semi-automatic ou full-automatic.
Nas munições, o sistema de recarregamento automático ficou ainda mais presente nos calibres .45 ACP (“Automatic Colt Pistol”), o .380 Auto, o .32 ACP e até o mais moderno .45 GAP (“Glock Automatic Pistol”) carregam esse “Automatic” no nome justamente para indicar que eram munições desenvolvidas para esse tipo de arma automática.
Enfim, do ponto de vista técnico, de quem realmente conhece o funcionamento de uma arma que recarrega sua câmara de forma automática, existe um ponto fundamental: ela só funciona corretamente porque uma série de sistemas, especialmente desenvolvidos para isso, operam em perfeita harmonia, cada um executando exatamente a função para a qual foi criado.
No caso específico das pistolas automáticas, o recarregamento da câmara não é um evento isolado. Ele depende de uma sequência lógica. Para que uma nova munição seja carregada, é necessário, antes, que o estojo deflagrado seja extraído da câmara e ejetado da arma. Só então o ciclo continua.
Para que esse processo aconteça, além dos sistemas básicos encontrados em qualquer arma de fogo — como o sistema de percussão — é necessário o funcionamento correto de três sistemas fundamentais.
O sistema de extração é o responsável por retirar o estojo da câmara de explosão, seja ele deflagrado ou não. Durante o ciclo automático, essa extração ocorre em função da força de recuo gerada pela expansão dos gases da munição deflagrada, que movimenta o conjunto a retaguarda e permite que o estojo seja extraído da câmara.
Na sequência, entra em ação o sistema de ejeção automática. É ele quem ejeta o estojo para fora da arma. Isso acontece quando o estojo, em movimento para trás, se choca com o ejetor da arma ou com qualquer ponto que faça oposição ao seu movimento. Em alguns modelos de armas, inclusive, esse papel pode ser desempenhado pelo próprio percussor.
Por fim, o sistema de alimentação assume o processo, sendo responsável por fornecer e posicionar a munição que será conduzida para a câmara no avanço do ferrolho.
Esse conjunto de sistemas não trabalha de forma isolada. Existe uma dependência direta entre eles. Um depende do outro para que o ciclo aconteça de forma completa, contínua e eficiente.
Não devemos enxergar a arma como um conjunto de peças soltas. Devemos enxergar um sistema em funcionamento, com etapas bem definidas, momentos específicos e funções claras. Devemos entender exatamente onde começa, onde termina e como cada parte interfere na outra.
E é exatamente esse tipo de entendimento que, dentro da nossa realidade, nós — instrutores de armamento e tiro — precisamos buscar e passar para nossos alunos.
Porque quando você entende o sistema, você muda a forma de enxergar a arma. Deixa de ser algo mecânico no sentido superficial e passa a ser algo lógico, previsível e compreensível.
E é a partir desse entendimento que todo o resto começa a fazer sentido.
O conhecimento nos leva mais longe e com segurança!
